Do Desastre ao Triunfo

variação, ondulação e vibração.

quarta-feira, abril 20, 2011

Textos curtos - Boonmee, Turnê, Monstros, Rapt, Mononoke, Maridos e Esposas, Loja dos Horrores e Sr. Fox

Indo além da relação com seu filme irmão "Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas", ou com o projeto de video arte "Primitive", e se concentrando em sua própria força independente, "A letter to Uncle Boonmee" se demonstra também muito poderoso. Apichatpong comprova mais uma vez seu talento nas delimitações de espaços mortos através de belíssimos travellings sobre moradias e florestas. Ao fundo, no discurso (se é que ainda era preciso dele), relatos reiterativos que revivem memórias, pesadelos e desejos. Boonmee teve os filmes que merecia.

"A letter to Uncle Boonmee" (Apichatpong Weerasethakul, Tailândia/Inglaterra/Alemanha, 2009). 8/10



Liberdade em passear por personagens sem a pretensão demiurgica de ter que contar uma história. "Turnê" - elipses grosseiras e psicologismo reduzido: eis um filme que estava com saudades de assistir. E se esses personagens são gostosonas do teatro burlesque, donas de seu próprio nariz, e um Mathieu Amalric patético apesar de seu egocentrismo, seja muito bem vindo ele ao mundo dos realizadores. Só peça a benção do tio Cassavetes.

"Turnê" (Tournée, Mathieu Amalric, França, 2010). 7,5/10


Deformados como seres divinos em seu senso de bondade e justiça. We accept one of us até que não sejas consumido pela extrema ganância. "Monstros" é um filme ético e humanista acima das bizarrices. E a maior de suas deformações não são seus personagens e sim a mutilação de cenas e o desprezo que sofreu por quem, em velhosnovos tempos, considera um absurdo criar intimidade e empatia com seres tão desprovidos de normalidade pela natureza. "We accept one of us? NOT!". Offend one... you offend them all.

"Monstros" (Freaks, Tod Browning, EUA, 1932). 8/10


"O sequestro de um herói" me causou grande desconforto. Serve quase como uma sentença de que toda a civilidade, verborragia e postura francesa/ocidental/normatizada é mais importante do que uma vida humana. Tudo narrado com uma sutiliza que o Michael Haneke deveria aprender. E não sei se lamento pelo final em aberto meio covarde ou se comemoro não ter sido decretado que esse suposto herói é mocinho ou mais um vilão de uma história em que apenas seu cachorro e seu sequestrador parecem ter o mínimo de humanidade.

"O sequestro de um herói" (Rapt, Lucas Belvaux, França/Bélgica, 2009). 7/10


Só mesmo Miyazaki para encantar gerações com seus traços imaginativos e expressivos associados a roteiros carregados de simbolismos. Em "Princesa Mononoke", o japonês relata uma epopeia digna de Homero, que sob toda empolgante aventura encontra na disassociação homem-natureza-deus e na construção do homem político e mediador seus temas-chave.

"Princesa Mononoke", もののけ姫/Mononoke-Hime, Hayao Miyazaki, Japão, 1997) 8,5/10


Woody Allen queria filmar "Maridos e esposas" em 16mm, para aproximá-lo do modelo documentário. O estúdio não deixou. Mas isso não impediu Allen de encostar no formato através da despreocupação com os ângulos e a montagem e de cenas em que seus personagens depõe diretamente para a câmera. As conturbadas relações amorosas de seus personagens têm então uma embalagem apropriada: realismo e asfixia. Difícil não se comover e se divertir com um Woody Allen ainda muito inspirado.

"Maridos e esposas" (Husbands and wives, Woody Allen, EUA, 1992). 8/10


Incorreção política a serviço de um humor negro antes ferino, agora quase ingênuo. Impagável Jack Nicholson novinho, como um masoquista. O underground de "A pequena loja dos horrores" é elemento primordial para uma coleção sinistra repleta de desajustes humanos e biológicos. Feeeed me!

"A pequena loja dos horrores" (The little shop of horrors, Roger Corman, EUA, 1960). 7/10


Não apenas por ser seu melhor filme, mas é "O fantástico Sr. Fox" a obra que sintetiza a carreira de Wes Anderson. Pode-se dizer que Anderson encontrou o formato perfeito para a liberdade de suas aventuras pops com desajustados sociais. Se sempre teve o dom de fazer o espectador sair do cinema com um sorriso no rosto, apesar de alguns desequilibrios narrativos durante a metragem de seus filmes (ex. "A vida marinha de Steve Zissou": complicado e perfeitinho), é com os personagens animados de "O fantástico Sr. Fox" que Anderson apresenta a melhor consistência na mistura de gêneros em todas suas peripécias discursivas e visuais.

"O fantástico Sr. Fox" (Fantastic Mr. Fox, Wes Anderson, EUA, 2009). 8,5/10

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